Há muitas confusões em torno do que se convencionou chamar de clínica social. Em alguns discursos, ela aparece reduzida a um serviço mais barato, quase como uma versão “simplificada” da psicoterapia. Em outros, surge como uma prática de caridade, como se atender pessoas pobres ou em condições de vulnerabilidade fosse, por si só, suficiente para caracterizar um trabalho comprometido socialmente. Não raramente, a prática clínica social também é capturada por uma lógica mercadológica ou precarizante, na qual o termo “social” serve para justificar remunerações baixas, condições de trabalho frágeis ou a ideia de que a técnica pode ser flexibilizada.
Essas interpretações não apenas distorcem o sentido da clínica social, como também esvaziam seu alcance político e ético. Reduzi-la a uma questão de preço é ignorar sua complexidade e reproduzir uma lógica de precarização do trabalho clínico feito majoritariamente por profissionais negros e indígenas em seus territórios. Na clínica social, o cuidado em saúde mental não deve ser entendido como gesto benevolência, mas sim como parte de um compromisso radical com a cidadania e com a justiça social.
Ao contrário do que muitos acreditam, compreender o sofrimento em sua dimensão social exige ainda mais preparo teórico, sensibilidade clínica e responsabilidade profissional. É necessário estar em formação política permanente, articulando o cuidado com o território, bem como rompendo as barreiras do consultório. Por isso, as estratégias de promoção de saúde, na clínica social, se ancoram na garantia de direitos, na recuperação da identidade social, no pertencimento comunitário e no fortalecimento cultural.
Embora experiências compartilhadas possam facilitar processos de identificação, a clínica social não se reduz a uma correspondência de identidade entre terapeuta e paciente. A vulnerabilidade não define, por si só, o método clínico. O que define a clínica social é a forma como o sofrimento é compreendido e trabalhado. Como aponta Neusa Santos Souza, compreende que a origem do sofrimento é social, mas sua estrutura é singular.
No fundo, a clínica social propõe uma ampliação da própria ideia de clínica. Não por acaso, sua história se entrelaça com movimentos políticos que lutaram pela democratização da saúde, pela reforma psiquiátrica e pela garantia de direitos sociais. Trata-se de uma escuta qualificada, crítica e comprometida com a contextualização do sofrimento, considerado em sua dimensão biopsicossocial.