Quem faz clínica racializada no Brasil são psicólogas negras que, na maioria das vezes, também estão vulneráveis. E, neste reconhecimento, falar de limites se torna ainda mais fundamental, pois o trabalho de cuidado, na linha de frente, expõe paciente e profissional a semelhantes violências sistemáticas. No encontro clínico, quando estas vulnerabilidades se entrelaçam, pode acontecer fragilização do vínculo, reprodução de violência e dessensibilização.
A psicologia clínica com perspectiva social, política e comunitária, é feita por psicólogos negros que estão sobrecarregados, endividados, isolados e, boa parte das vezes, adoecidos. Muitos também se sentem pouco reconhecidos em sua profissão, pois a psicologia brasileira segue embranquecida, descontextualizada e pouco sensível à análise interseccional. Como aponta Carla Akotirene, aqui raça informa classe, então não é possível fazer clínica racializada sem que ela seja também social.
Fazer este reconhecimento, porém, não pode estar distante da garantia de direitos como horizonte. A clínica, quando afastada da luta política, não cria possibilidades para além das 4 paredes do consultório, nem para paciente, nem para profissional. Da mesma forma, clínica sem movimento no território, cultura, arte e comunidade é um erro político. Pois uma clínica desarticulada se torna um espaço de poucas alternativas, isolada, individualizante. O cuidado, a saúde e o bem-estar possuem condições, inegociavelmente, comunitárias.
A clínica com vulneráveis frequentemente demanda habilidades que envolvem acolhimento, regulação, previsibilidade, articulação na rede e flexibilidade. Esse manejo diário no trabalho de cuidado é altamente extenuante, portanto, exige fechamento adequado para não gerar sobrecarga de estresse. O que vemos, porém, são psicólogas negras sustentando clínicas com mais de 50 pacientes semanais, sem a menor certeza de que poderão pagar as contas no início do mês. Fazem isso com o afeto genuíno e a escolha política de uma solidão que atravessa oceanos e gerações, antes mesmo da psicologia pensar em existir como ciência ou profissão.
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Sobre as autoras
Bárbara Borges (29) e Francinai Gomes (26) são pesquisadoras, escritoras e coordenadoras do projeto Pra Preto Psi. Ambas são naturais do interior baiano, tendo se conhecido durante a graduação em psicologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atuam no campo da psicologia social e promoção de saúde mental da população negra, se dedicando a temática da clínica racializada. Publicaram juntas o livro Saber de mim: autoconhecimento em escrevivências negras (2023) e compartilham no instagram Pra Preto Ler escrevivências que unem psicologia, saúde mental e comunidade negra brasileira.
