Somos um povo ferido, como aponta bell hooks no texto “Vivendo de amor”, e precisamos reconhecer que a opressão e a exploração distorcem e impedem nossa capacidade de amar. A rotina corrida e a necessidade de se manter produtivo ou forte tem nos condicionado a deixar nossas emoções, afetos e limites para depois. Estamos chamando aqui de “modo sobrevivência” as formas de vida marcadas pela violação de direitos, exploração do trabalho e vínculos rompidos. Condições de escassez de vida, nos quais o sofrimento denunciam abandonos sistemáticos e anos de silenciamento.
A jornada 6×1 nos centros urbanos impõe modos de vida baseado na sobrevivência, também a violência policial e a violência doméstica sustentam um cotidiano dominado pelo medo da aniquilação. A percepção de ameaça constante gera estresse e ansiedade, que a longo prazo retiram do sujeito negro todo o pensamento de prazer e todo o prazer de pensar, como nos disse Neusa Santos Souza. Para os que estão sendo massacrados, o último ato de resistência é ouvir vozes na cabeça chamando o seu nome, lembrando que ainda existem. Tornar-se negro, neste contexto, coincide com o fortalecimento de novos modos de vida pautados na garantia de direitos e na contracolonização.
Esse modo de vida que empurra o sentir para o depois também compromete nossa capacidade de estabelecer vínculos profundos. No silêncio forçado das emoções, a comunicação afetiva se fragiliza, tornando difícil nomear o que se sente, expressar dor, desejar cuidado. Mulheres negras que guardam seus lutos em jornadas de sobrecarga adoecem pela falta de cuidado e apoio da sua rede. A falta de espaço para a escuta e para o afeto cria barreiras nas relações, isola, endurece, e nos afasta da possibilidade de construir redes de apoio genuínas. O sofrimento se acumula nos corpos e nas subjetividades, muitas vezes sem encontrar canais de expressão, sendo normalizado ou naturalizado até se tornar adoecimento.
Romper com esse ciclo exige mais do que resistir. É preciso criar novas formas de viver. O movimento de contracolonização proposto por Nêgo Bispo nos aponta caminhos que reaproximam corpo, território e comunidade. Quando o tempo deixa de ser apenas instrumento de produção e volta a se alinhar ao ritmo da natureza, é possível reaprender a estar junto, a partilhar, a sentir. A reconexão com práticas coletivas e ancestrais nos ajuda a recuperar o sentido da vida, e como afirma bell hooks, nossa autorrecuperação está no ato de amar. Amar aqui não é um gesto individual ou abstrato, mas a prática política que sustenta nossa cura e afirma nossa humanidade.
Sobre as autoras
Bárbara Borges (29) e Francinai Gomes (26) são pesquisadoras, escritoras e coordenadoras do projeto Pra Preto Psi. Ambas são naturais do interior baiano, tendo se conhecido durante a graduação em psicologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atuam no campo da psicologia social e promoção de saúde mental da população negra, se dedicando a temática da clínica racializada. Publicaram juntas o livro Saber de mim: autoconhecimento em escrevivências negras (2023) e compartilham no instagram Pra Preto Ler escrevivências que unem psicologia, saúde mental e comunidade negra brasileira.
